16 DEZ 2014

Programa de Promoção dos Direitos Humanos da Pessoa Idosa/UFMS

Entrevista com médica geriatra põe em relevo aspectos socioculturais e políticos do processo de envelhecimento humano no país

  • Criado:
  • Henrique Alves de Castilho Drobnievski

Henrique Drobnievski
 
Karla Giacomin diz que a refoma da Previdência é necessária, mas deve reformar a cidadania, o respeito ao direito do outro, o respeito a coisa pública, a continuidade da politicas publicas, o acesso a saúde e educação a todos


A Médica Geriatra Karla Giacomin, em entrevista exclusiva ao Portal Brasil Idoso, trata de assuntos importantes relacionados aos direitos da pessoa idosa. Esta entrevista foi feita em formato pergunta e resposta onde a conversa toma forma e ganha relevância na discussão do futuro da sociedade e do envelhecimento saudável. Por ser um tema ainda pouco abordado é importante que os debates cresçam na mesma velocidade em que a população brasileira está envelhecendo.

Karla Cristina Giacomin

Graduada em Medicina pela Universidade Federal de Minas Gerais (1990), com Residência e especialização em Medicina Geriátrica pela Universidade Louis Pasteur Strasburgo França; Mestrado em Saúde Pública, com ênfase em Epidemiologia (UFMG) e Doutorado em Ciências da Saúde (CPqRR/FIOCRUZ). Sócia-diretora da Geros, Gerontologia e Geriatria, desde 1998, e servidora da Secretaria Municipal de Saúde da Prefeitura de Belo Horizonte, desde 1999, onde tem atuado na coordenação da Atenção à Saúde do Idoso. Presidiu o Conselho Nacional dos Direitos do Idoso de 2010 a 2012.

Portal Brasil idoso - A Tábua Completa da Mortalidade 2013, calculada pelo IBGE, foi publicada nesta segunda-feira (1º/12) no Diário Oficial da União. Ela mostra que a expectativa de vida para todas as idades até 80 anos apresentou um aumento de três meses e 25 dias em relação a 2012, quando a esperança de vida do brasileiro era de 74,6 anos. Mas, se comparada com a de dez anos atrás, a expectativa de vida do brasileiro aumentou mais de três anos. Por que a expectativa de vida tem crescido cada vez mais nos últimos anos e como isso interfere na sociedade?

Karla Giacomin - A expectativa de vida reflete as melhorias nas condições de vida da maioria das pessoas. De fato, a urbanização e vários avanços das ciências têm permitido que pessoas sobrevivam a condições que anteriormente seriam letais. O controle de doenças crônicas e a prevenção ou tratamento de doenças infecciosas têm possibilitado ganhos no tempo de vida. Porém, o que se pretende não é durar mais, mas viver mais e melhor. Este é o grande desafio: evitar ou postergar ao máximo as limitações, aumentar as oportunidades de convívio, de participação social e de aprendizagem de pessoas de todas as idades.

Portal Brasil idoso - Nos dicionários o termo envelhecer significa o processo de se tornar velho. Quando falamos sobre o envelhecimento humano há uma discussão confusa de nomes que se quer dar e adaptar à velhice, tais como Melhor Idade, Terceira Idade, Gerontolescência, entre outros. Em sua opinião, qual seria o termo mais adequado e qual a relevância desta discussão quando falamos sobre direitos e saúde da pessoa idosa?

Karla - Quem está na infância é criança, na adolescência é adolescente; na juventude, jovem. Por que quem está na velhice estaria na Melhor Idade ou outros termos similares? Quando o termo Terceira Idade foi cunhado, em meados do século passado na França, ele buscava introduzir a ideia de um tempo de usufruir do que foi conquistado ao longo da vida, de aproveitar a aposentadoria como um tempo novo, de descobertas. Era também uma tentativa de desvincular a noção de envelhecer daquela de uma sucessão de perdas ou de fim da vida produtiva. Hoje, até mesmo o termo Terceira Idade tem caído em desuso e vem sendo substituído por sênior - um resultado de estratégia de marketing para ampliar o mercado consumidor e de serviços para pessoas dessa faixa etária que não se consideram velhos. O pano de fundo dessa discussão é que, dêem o nome que quiserem, estamos falando de um tempo heterogêneo, em que pessoas com trajetórias de vida distintas podem chegar com maior ou menor qualidade de vida, a depender do acesso ou não que tiveram a direitos fundamentais, como Educação, Saúde, Trabalho.

Portal Brasil idoso - O homem é um ser simbólico, mas nem sempre os símbolos conseguem comunicar adequadamente o que se pretende. A imagem da pessoa encurvada com uma bengala na mão para ilustrar a pessoa idosa pode ser um desses exemplos?

Karla - Novamente, a pergunta é o que significa no imaginário ocidental a perspectiva de envelhecer? Como ser diferente disso? O que nos iguala: a idade? As limitações? O potencial? Logo, ainda que nossas sociedades democráticas coloquem a igualdade de condições na vanguarda das suas necessidades, a cultura ocidental assume valores consumistas e individualistas, baseados na juventude e na autossuficiência do indivíduo. Assim, a pretensa igualdade sempre retorna no olhar do outro, revelando a relutância do jovem em se reconhecer no velho que está à sua frente; e uma pessoa saudável hesita ainda mais a se encontrar na pessoa deficiente, porque ambos refletem a imagem de fraqueza e de uma enfermidade que interferem com a autoimagem e a autoestima dos envolvidos. O que será desse simbólico para as gerações mais jovens, que têm sido poupadas de sofrimentos e obrigações, como ir a velórios e cerimônias fúnebres, fazer visitas a doentes, participar da velhice, da incapacidade e da morte de pessoas próximas? No plano dos significados, essa falta de socialização do processo de morte e de morrer ameaça a elaboração das relações sociais na velhice, porque o imaginário se refugia no cenário narcísico superpotente, como se a morte não fosse o derradeiro destino do homem. Mas a morte também é parte e condição da vida humana. E não apenas da velhice.

Portal Brasil idoso - Há alguns anos, por iniciativa do CNDI, foi criado o Cadastro Nacional de Conselhos de Direitos da Pessoa Idosa, que objetiva reunir informações sobre conselhos municipais e estaduais do Brasil para melhor gerir e promover essas informações em nível nacional. Como você vê os resultados do cadastro nacional e que relação poderia ser feita, em sua opinião, com o Portal Brasil Idoso?

Karla - O Portal Brasil Idoso enseja agregar entidades e consolidar a transparência de informações para a sociedade civil. O Cadastro dos Conselhos poderia favorecer essa proposta criando elos entre as redes. Porém, a parte governamental em nível federal não se dispõe a fazê-lo. Os Estados e municípios ainda são muito dependentes da estrutura do gestor para funcionar. O Portal Brasil Idoso pode ajudar a mudar essa situação.

Portal Brasil idoso - Na palestra "Envelhecer como direito: como construir esta possibilidade?", você discute a "Reprivatização da velhice" e a indiferença do Estado sobre a responsabilidade do envelhecimento, que deixa a cargo da família a função de cuidar dos diretos da pessoa idosa. Como equilibrar o governo, sociedade civil e indivíduo de forma que a realidade atual seja mais bem atendida?

Karla - Quanto mais velhos, mais precisamos de cuidados, mais a vida vai embora, mais a morte se aproxima e encontra o homem hodierno sozinho, diante de sua morte e ou daquela de seus próximos. Nesse tempo heterogêneo é difícil de se fazer representar porque a fragilidade ou a força podem estar presentes em pessoas do mesmo grupo etário. O que nos condiciona é o resultado do que vivemos ao longo do curso da vida, do acesso ou não ao cuidado necessário. Nesse sentido o Estado brasileiro promove a reprivatização da velhice, como disse a Profª Guita Debert, como se a velhice fosse responsabilidade do indivíduo, mas também promove a reprivatização do cuidado. É como se a transferência de renda via Benefício de Prestação Continuada fosse o bastante para garantir os cucuidados. Não é! A própria transformação e a redefinição das funções e valores da família moderna levaram ao estabelecimento de fronteiras mais estritas entre família e comunidade e à transferência das funções de bem-estar, outrora concentradas na família, para instituições. Nas sociedades industrializadas, o cuidado que era considerado como parte da obrigação das famílias gradualmente foi sendo transferido para instituições (escolas, creches, hospitais). Assim, a família deixou de ser a única fonte disponível de apoio a seus membros dependentes e a comunidade deixou de apoiar-se na família como principal agência de bem-estar e controle social.

Além disso, a mulher que cuida dos filhos, do cônjuge, dos pais, não tem garantia de ser cuidada por sua família: são os vizinhos que vêm em seu socorro, o que alerta para o risco de extinção da figura tradicional de cuidadora (esposa responsável pelas tarefas domésticas e pelo cuidado de crianças, idosos e enfermos, ou filha solteira que não teve ocupação prévia), inclusive em cidades do interior. Porque a mulher trabalha, é chefe de família e não tem garantias trabalhistas para ser cuidadora familiar. No tripé constitucional família/Estado/sociedade, que estabelece a responsabilidade pelo amparo à velhice, somente a família é criminalizada. Isso está errado. A família cuida mal porque não conta com políticas efetivas de cuidados de longa duração no Brasil. Apesar de um vasto arcabouço legal Constituição, Política Nacional do Idoso, Estatuto do Idoso, Política Nacional de Saúde da Pessoa Idosa, Política Nacional de Assistência Social, que assegura apoio ao cuidador e à pessoa idosa que necessita de cuidados, a necessidade e a responsabilidade pela sistematização do cuidado domiciliário e o cuidado asilar de qualidade permanecem largamente insuficientes. 

Portal Brasil idoso - Quando autoridades públicas se manifestam em relação ao envelhecimento, muitas vezes, elas ou dizem ou dão a entender ser culpa da pessoa idosa o problema da saúde e da previdência social. Alguns estudiosos, como Ana Amélia Camarano, defendem uma reforma da previdência social. Como você enxerga essa questão?

Karla - Concordo com a necessidade de discutir assuntos polêmicos, de esclarecer a população idosa e não idosa sobre o direito à aposentadoria e a falta de respeito praticada com os aposentados brasileiros, que ganham mais de um salário-mínimo, cujos rendimentos não são corrigidos. A continuar assim, dentro de algum tempo todos os aposentados pelo INSS perceberão apenas um salário-mínimo, mesmo que tenham contribuído acima disso. Por sua vez, em 30 anos teremos 176 velhos para cada 100 brasileiros jovens. Não dá para negar essa perspectiva demográfica. A reforma da Previdência é necessária, mas ela precisa ser parte de um processo que resulte na reforma da cidadania, do respeito ao direito do outro e do respeito à coisa pública, da continuidade das políticas públicas de qualidade, do acesso à Saúde e à Educação para todos, do enfrentamento da impunidade e da superação de toda forma de violência inclusive aquela que é praticada pela omissão do Estado. 

Portal Brasil idoso - Para toda criança se faz a pergunta: "O que você vai ser quando crescer?". Naturalmente esta pergunta é feita por entendermos que crescer é uma etapa que faz parte da vida humana. Ainda que envelhecer também seja uma etapa da vida, por que a pergunta "o que você vai ser quando envelhecer?" nunca é feita?

Karla - Pelo medo de descobrir que a velhice anuncia para todos a finitude que preferimos negar. 

Portal Brasil idoso - Karla, o que você quer ser quando envelhecer?

Karla - Uma cidadã bacana, cumpridora dos deveres, atuante na vida da sociedade, que continue a serviço de um mundo melhor e uma mulher apaixonada pelo companheiro, que gosta de cozinhar, de ler, de curtir a natureza, de paz. Pretensioso, não?